quarta-feira, 28 de março de 2018

Simetria

Acho que pelo fato de meu pai ser caminhoneiro, sempre tive muita simpatia por este tipo de profissão. Aliás, desde criança adorava brincar com caminhões e tinha até mesmo uma transportadora imaginária. Mas tem uma coisa que eu nunca gostei e, em hipótese alguma, admiti em minhas brincadeiras: carros, caminhões e bonecos assimétricos.
            Pode parecer bobeira, mas não há nada mais irritante em um mundo criado por uma criança do que assimetria. A não ser que a assimetria fosse intencional e gigantes aparececem no cenário para tacar o terror. Por isso, nada de misturar Comandos em Ação com Playmobil, He-man com  Lego, e por aí vai. Pois bem, acabei de ser assaltado pelas paranóias da infância.
            Como de hábito, gosto de sair para caminhar e ler depois do trabalho. E agora que o raio do frio foi embora, recomecei a minha atividade aqui em Jeju. Infelizmente na parte da ilha onde eu moro, não posso desfrutar da paisagem maravilhosa e da vista para o mar. Tenho que caminhar pela rodovia que passa aqui perto de casa mesmo, cercaco de muros de pedra e sempre levando sustos com os carros que passam voando pela rua. Além disso, moro em uma área próxima a algumas pedreiras aqui da ilha. Assim, toda vez que vou caminhar recebo, aqui e ali, aquelas baforadas dos enormes caminhões que cruzam o meu caminho. Mas não estou falando daqueles caminhõezinhos da Hyunday. Falo daqueles caminhões enormes da Scania, com uma caçamba gigante e rodas mais altas do que eu.
            Pois bem, esta semana reparei que os enormes caminhões possuem insulfilm daqueles bem escuros em todas as suas janelas. Não dá para ver absolutament nada dentro da cabine. Fiquei intrigado com o fato e comecei a me perguntar a razão. Tudo bem que os carros por aqui usam insulfilm, mas nada tão escuro. Aliás, se pensar bem, acho que os caminhõezinhos nem insulfilm usam.
            Intrigado com o fato, perdi até mesmo a atenção no que estava lendo e me pus a buscar respostas para tão importante questão. Por que eles usam um insulfilm tão escuro? Será que é pelo fato de as cabines serem tão altas e tão mais expostas ao sol forte? Enfim, continuei caminhando com as minhas dúvidas, mas logo entendi entendi o porquê. E a resposta me deixa nervoso até agora.
            Acontece que pouco tempo depois um caminhão enorme parou adiante na estrada e revelou o mistério. O insulfilm colocado é tão escuro para esconder uma das coisas mais assimétricas que já vi na vida: um pequeno coreano, bem average size, saindo de um caminhão tão grande que parecia um boneco do Lego dirigindo o carro do Falcon, ou do Max Steel (ou sei lá que brinquedo as crianças gostam hoje em dia).

            No fim, mistério resolvido e mais uma lição de vida e consideração transmitida por parte dos coreanos. Uma prova de respeito à infância paranóica de pessoas como eu.    

terça-feira, 20 de março de 2018

A Idolatria do PIB

Produto interno bruto. Ou PIB para os íntimos. Mesmo que não tenhamos a mínima ideia do que isto significa, a maioria de nós escuta esta expressão ou sigla frequentemente. Basta abrir, acessar ou assistir o jornal e lá está. O PIB cresceu! O PIB caiu! Olha como o PIB da China cresceu! Ih, lá vem a Índia e o seu PIB fenomenal. E por aí vai.
Aliás, só para esclarecer, o produto interno bruto, ou PIB, é a soma final dos valores produzidos por bens e serviços em um país durante o período analisado. Geralmente, o PIB demonstra a saúde financeira de uma nação e o impacto que isso causa no dia a dia dos seus cidadãos.
Certamente, todo mundo quer que o PIB do seu país cresça, pois isso pode significar uma melhoria na geração de empregos, aumento do poder de compra e qualidade de vida. Tanto é que, mesmo não entendendo muito bem o que é o PIB, nós escolhemos nossos presidentes muitas vezes baseados no que eles prometem em relação ao PIB. É uma sigla danada, que está em todo lugar. Contudo, tem horas que o PIB deixa de ser um indicador e se traveste em uma espécie de deus.
Na antiguidade, e na atualidade também, era muito comum as pessoas oferecerem sacrifícios aos deuses para receber algo em troca. Grandes vitórias militares, colheitas fartas, bebês saudáveis e a volta da pessoa amada em três dias eram pedidos comuns feitos às divindades. E cada pedido devia ser feito ao deus específico, pois afinal o deus da colheita não era o deus da guerra e por aí vai. Mais ou menos como as turmas do Supremo Tribunal Federal.
Com o PIB acontece uma coisa parecida. Nações inteiras oferecem suas preces e sacrifícios ao deus do crescimento econômico, beijam a mão invisível do caboclo pai Adam Smith e vendem até a alma ao Xi Jinping para crescer como a China. O problema é que depois se frustram quando o diabo dos números não traz de volta o emprego e a renda amada. Ou tão ruim quanto, prosperam tanto que passam a ser possuídos pelo demônio do consumismo e as forças espirituais da ganância. Mais ou menos como aconteceu com uma querida região produtora de hidrocarbonetos que eu conheço.
De fato, a idolatria do PIB não é saudável. Basta ver o exemplo do Vietnam. Com um crescimento econômico astronômico desde 1985, um PIB médio de 6.19% desde 2000 (8.46% só no último trimestre de 2017), 65% da população abaixo dos 30 anos, um mercado consumidor de mais de 90 milhões de pessoas e já ameaçando várias cidades chinesas em termos de competitividade, o povo vive oprimido debaixo da ditadura do partido único. Tanto que até um pic-nic inocente na praça se torna alvo do escrutínio da polícia local (pelo menos a comida estava excelente).
Assim como os deuses da antiguidade não entregavam nada de mão beijada aos seus adoradores, o Deus do PIB também não é um modelo de liberalidade. Portanto, da próxima vez que você ouvir os números mágicos do PIB, pense duas vezes antes de se prostrar. Lembre-se que mágica sempre custa alguma coisa.