domingo, 10 de junho de 2018

Surfista Coreano

  Dia desses fui à praia. O dia estava lindo. Céu azul, brisa leve e aquele calor dentro do carro sem ar-condicionado. O estacionamento era coladinho na areia e encontrei aquela vaga na entrada. Desci do carro e percebi que nem estava tão quente assim. Era só o carro mesmo.

  Caminhei em direção a umas árvores onde fui encontrar o resto do pessoal. De repente surgiu um isopor e começaram a passar as marmitas de mão em mão. Peguei um prato e uns pauzinhos, encontrei um pedaço de plástico para sentar e me toquei que nunca tinha farofado na praia. Pensei que tudo na vida tem uma primeira vez e, de qualquer forma, não estava farofando em meu país, mas no país dos outros. Who cares!

  Enquanto curtia o Jjajangmyeon, aproveitei para olhar as modas. Percebi que todo mundo estava vestido com mangas compridas e chapéu. Também vi uma galera de Long John descendo a escada que dava para a areia. Levantei e fui até o parapeito para ver o que estava rolando. A claridade invadiu meus olhos claros e fiz olhinho de coreano até conseguir enxergar direito meia-hora depois. Quando finalmente consegui ver o mar, percebi que a água era linda e as pessoas podiam andar um pedação até a água chegar na cintura.

  Chegue mais perto da mureta e comecei a sacar as pessoas. Tinha bastante gente na areia e mais um monte na água. Todo mundo coberto. Perguntei a uma colega se os coreanos tinham propensão a câncer de pele, mas ela me disse que eles tinham medo de ficar bronzeados. Faz sentido. Num lugar onde o padrão de beleza é branco fantasma, qualquer bronzeado te joga na vala comum da feiura.

  Desci a escada e cheguei na areia. A água estava fazendo o canto da sereia, mas eu estava de bermuda de pano e fiquei sem coragem de entrar. Já tinha farofado. Não queria pagar outro mico. Ai que burro!  Pensei com os meus botões. Mas ao invés de ficar com peninha de mim mesmo, continuei focado naquilo que tinha me atraído para a praia.

  Acontece que tinha observado umas figuras curiosas lá no fundão. Um enxame de surfistas, todos com longboard e roupa de borracha. E mais surfistas chegando. Quando avancei pela areia, vi muitas pranchas deitadas. Coisa da mais alta qualidade. E gente vindo e indo com elas debaixo do braço. Continuei caminhando, em direção a água, até que a bermuda de pano me parou. Mas já era o suficiente. Levantei os olhos e lá, uns cinquenta metros adiante de mim estava o grupo. Mais surfistas do que eu costumava ver na praia do pecado em meus tempos de adolescência, no auge da temporada das ondas boas.

  Fiquei ali olhando um tempão. Intrigado. Esperando para ver o que ia acontecer. Fiz olhinho de coreano para dar aquela escaneada pente-fino em alta resolução. Terminei e retornei por onde tinha vindo, subi a escada e voltei para a plataforma de onde tinha visto os surfistas pela primeira vez. Parei e olhei de novo. Olhinho apertadinho. Até que finalmente confirmei aquilo em que os meus olhos não queriam acreditar: não tinha uma onda. O mar estava igual a uma lagoa. Mas todo mundo estava feliz da vida em pé, com água na cintura, segurando as pranchas e esperando sabe-se lá o que. Só para confirmar, perguntei se naquela praia rolava alguma onda e recebi um não como resposta.

  É amigos, de fato neste mundo globalizado e multicultural realmente é cada um com seu cada um. Ou como dizia o sábio DJ Malboro,

“Não tem caô
 Do la, do la, do lado de cá
 Da zona sul à zona norte

 O que eu quero é surfar.”    

terça-feira, 8 de maio de 2018

O Mistério do Jaguar


Dia desses vi um Jaguar. O carro, não o animal. Estava parado no semáforo ao meu lado. Como o ar do meu carro não funciona, aproveitei para fingir que o vidro estava aberto para admirar o carrão.
Acho que era verde-musgo. Não sei ao certo pois tive um sofá que pensava ser verde-musgo e minha mãe e esposa disseram que era marrom. Enfim. Quem iria comprar um Jaguar marrom? De qualquer forma, estava lá admirando o carro. Não vi o motorista, pois o vidro era completamente escuro. Podia muito bem ser um autobot e eu nunca saberia.
Acelerou e fez um barulhão. Acelerei também, mas a única coisa que reparei foi o marcador no painel indicando 260.000 kilômetros rodados. Imaginei que se transformasse o número em dólares poderia comprar um Jaguar. Ou não. De qualquer maneira, não sobraria nada para o seguro e o IPVA.
Não fiquei com inveja. Meu carro tinha uma vista melhor. Não importa se é uma van modelo 2000 com uma porta de cor diferente das outras. O que importa é que me deu o prazer de ver o Jaguar de camarote. Dizem que as pessoas que dirigem carros como o Jaguar se sentem mais poderosas. Acho que é o poder do motor. Eu me contentei com o poder da visão.
Acelerou de novo. Fingi que estava me chamando para o racha. Acelerei também. Desta vez não olhei para o painel. Sabia que a luz verde logo ia aparecer e eu não ia dar mole e comer poeira. Luz verde. O Jaguar disparou na frente, mas logo alcancei o danado. Haha! Sabia que se ele fosse muito rápido ia dar de cara com o próximo semáforo fechado.

Colei no Jaguar mais uma vez. Luz verde e o bicho saiu em disparada de novo. Desta vez fui só no sapatinho. Segundos depois estava lá, lado a lado com a fera. Tipo o coelho e a tartaruga. Fomos nessa pegada por um bom pedaço até que o Jaguar deu seta e pegou a saída para a Mystery Road. Eu continuei adiante, direção de casa. 
O único mistério em que foquei naquele dia é a razão que leva uma pessoa a comprar um Jaguar para dirigir em uma ilha onde a velocidade máxima é 70 Kilômetros por hora. 

quarta-feira, 28 de março de 2018

Simetria

Acho que pelo fato de meu pai ser caminhoneiro, sempre tive muita simpatia por este tipo de profissão. Aliás, desde criança adorava brincar com caminhões e tinha até mesmo uma transportadora imaginária. Mas tem uma coisa que eu nunca gostei e, em hipótese alguma, admiti em minhas brincadeiras: carros, caminhões e bonecos assimétricos.
            Pode parecer bobeira, mas não há nada mais irritante em um mundo criado por uma criança do que assimetria. A não ser que a assimetria fosse intencional e gigantes aparececem no cenário para tacar o terror. Por isso, nada de misturar Comandos em Ação com Playmobil, He-man com  Lego, e por aí vai. Pois bem, acabei de ser assaltado pelas paranóias da infância.
            Como de hábito, gosto de sair para caminhar e ler depois do trabalho. E agora que o raio do frio foi embora, recomecei a minha atividade aqui em Jeju. Infelizmente na parte da ilha onde eu moro, não posso desfrutar da paisagem maravilhosa e da vista para o mar. Tenho que caminhar pela rodovia que passa aqui perto de casa mesmo, cercaco de muros de pedra e sempre levando sustos com os carros que passam voando pela rua. Além disso, moro em uma área próxima a algumas pedreiras aqui da ilha. Assim, toda vez que vou caminhar recebo, aqui e ali, aquelas baforadas dos enormes caminhões que cruzam o meu caminho. Mas não estou falando daqueles caminhõezinhos da Hyunday. Falo daqueles caminhões enormes da Scania, com uma caçamba gigante e rodas mais altas do que eu.
            Pois bem, esta semana reparei que os enormes caminhões possuem insulfilm daqueles bem escuros em todas as suas janelas. Não dá para ver absolutament nada dentro da cabine. Fiquei intrigado com o fato e comecei a me perguntar a razão. Tudo bem que os carros por aqui usam insulfilm, mas nada tão escuro. Aliás, se pensar bem, acho que os caminhõezinhos nem insulfilm usam.
            Intrigado com o fato, perdi até mesmo a atenção no que estava lendo e me pus a buscar respostas para tão importante questão. Por que eles usam um insulfilm tão escuro? Será que é pelo fato de as cabines serem tão altas e tão mais expostas ao sol forte? Enfim, continuei caminhando com as minhas dúvidas, mas logo entendi entendi o porquê. E a resposta me deixa nervoso até agora.
            Acontece que pouco tempo depois um caminhão enorme parou adiante na estrada e revelou o mistério. O insulfilm colocado é tão escuro para esconder uma das coisas mais assimétricas que já vi na vida: um pequeno coreano, bem average size, saindo de um caminhão tão grande que parecia um boneco do Lego dirigindo o carro do Falcon, ou do Max Steel (ou sei lá que brinquedo as crianças gostam hoje em dia).

            No fim, mistério resolvido e mais uma lição de vida e consideração transmitida por parte dos coreanos. Uma prova de respeito à infância paranóica de pessoas como eu.    

terça-feira, 20 de março de 2018

A Idolatria do PIB

Produto interno bruto. Ou PIB para os íntimos. Mesmo que não tenhamos a mínima ideia do que isto significa, a maioria de nós escuta esta expressão ou sigla frequentemente. Basta abrir, acessar ou assistir o jornal e lá está. O PIB cresceu! O PIB caiu! Olha como o PIB da China cresceu! Ih, lá vem a Índia e o seu PIB fenomenal. E por aí vai.
Aliás, só para esclarecer, o produto interno bruto, ou PIB, é a soma final dos valores produzidos por bens e serviços em um país durante o período analisado. Geralmente, o PIB demonstra a saúde financeira de uma nação e o impacto que isso causa no dia a dia dos seus cidadãos.
Certamente, todo mundo quer que o PIB do seu país cresça, pois isso pode significar uma melhoria na geração de empregos, aumento do poder de compra e qualidade de vida. Tanto é que, mesmo não entendendo muito bem o que é o PIB, nós escolhemos nossos presidentes muitas vezes baseados no que eles prometem em relação ao PIB. É uma sigla danada, que está em todo lugar. Contudo, tem horas que o PIB deixa de ser um indicador e se traveste em uma espécie de deus.
Na antiguidade, e na atualidade também, era muito comum as pessoas oferecerem sacrifícios aos deuses para receber algo em troca. Grandes vitórias militares, colheitas fartas, bebês saudáveis e a volta da pessoa amada em três dias eram pedidos comuns feitos às divindades. E cada pedido devia ser feito ao deus específico, pois afinal o deus da colheita não era o deus da guerra e por aí vai. Mais ou menos como as turmas do Supremo Tribunal Federal.
Com o PIB acontece uma coisa parecida. Nações inteiras oferecem suas preces e sacrifícios ao deus do crescimento econômico, beijam a mão invisível do caboclo pai Adam Smith e vendem até a alma ao Xi Jinping para crescer como a China. O problema é que depois se frustram quando o diabo dos números não traz de volta o emprego e a renda amada. Ou tão ruim quanto, prosperam tanto que passam a ser possuídos pelo demônio do consumismo e as forças espirituais da ganância. Mais ou menos como aconteceu com uma querida região produtora de hidrocarbonetos que eu conheço.
De fato, a idolatria do PIB não é saudável. Basta ver o exemplo do Vietnam. Com um crescimento econômico astronômico desde 1985, um PIB médio de 6.19% desde 2000 (8.46% só no último trimestre de 2017), 65% da população abaixo dos 30 anos, um mercado consumidor de mais de 90 milhões de pessoas e já ameaçando várias cidades chinesas em termos de competitividade, o povo vive oprimido debaixo da ditadura do partido único. Tanto que até um pic-nic inocente na praça se torna alvo do escrutínio da polícia local (pelo menos a comida estava excelente).
Assim como os deuses da antiguidade não entregavam nada de mão beijada aos seus adoradores, o Deus do PIB também não é um modelo de liberalidade. Portanto, da próxima vez que você ouvir os números mágicos do PIB, pense duas vezes antes de se prostrar. Lembre-se que mágica sempre custa alguma coisa.

segunda-feira, 10 de julho de 2017

Simbologia Urbana

Não sou artista, mas facilmente me deixo impressionar pelo poder de uma imagem.

  Há alguns meses estava no centro de Niterói visitando um amigo dentista que ofereceu um check-up gratuito na dentição. O que aconteceu naquele dia me marcou de tal forma, que, até hoje, quando fecho os olhos, filosofo.
  O consultório do amigo ficava no famoso Niterói Shopping. Lá pela metade de uma manhã de dezembro, saí da casa dos meus sogros em um calor escaldante de 44 graus e andei até o ponto de ônibus em Santa Rosa. Peguei o 45 em direção ao centro. Ao escalar o ônibus, a primeira sensação foi a de choque térmico. Passei do calor miserável da rua para o frio europeu do ônibus e peguei um resfriado. Já com o nariz escorrendo, encontrei um lugar no coletivo. Sentei e comecei a minha jornada pelo transito da cidade. Como sempre, trouxe um livro comigo, mas naquele dia ao invés de ler, preferi admirar o cenário urbano. Não deu muito certo, em poucos segundos abri o livro e comecei a leitura.
  Cerca de vinte minutos depois, com a garganta já inflamada, avistei o Niterói Shopping pela janela. Não sei porque, mas sempre que vejo aquela aberração arquitetônica me lembro de um sorvete com gosto de Pinho Sol que meu pai comprou quando eu era criança, lá na cidade de Itú. Talvez seja porque o Shopping pareça com o sorvete. Se um dia voltar a Itú, vou checar. Se bem que isso foi lá na década de 1980 e duvido que ainda vendam o tal sorvete.
  O ônibus parou no ponto da famosa Amaral Peixoto. Desci do veículo com a sensação de estar entrando em um forno. Depois de quase ser atropelado pelos pacientes motoristas brasileiros, consegui chegar a entrada do Shopping. Entrei no prédio e, depois de passar por uma sequência de lojas de roupa plus-size e equipamentos hospitalares, cheguei à escada rolante. Levei um tempo para me encontrar, pois parece que, por mais simples que aquele Shopping seja, os arquitetos cismaram que deviam complicar as coisas e valorizar o seu infeliz trabalho. Quando finalmente cheguei ao terceiro piso, alcancei os elevadores e fiquei com muito medo, pois o lugar parecia um bunker de concreto de algum filme sobre a segunda guerra. 
  O elevador subiu, subiu, subiu... e parou. Ao sair do elevador, estava em um corredor tipo Resident Evil, com uma luz com mal contato piscando lá no fundo. Andei pelo que parecia um abrigo nuclear abandonado e cheguei ao consultório indicado. Toquei a campainha, esperei e nada. Depois de alguns minutos, decidi que meu amigo não estava lá e resolvi correr de volta para o elevador. Enquanto caminhava, suava de gotejar (neste momento, tenho certeza que ouvi a voz do Sauron seguida de uma leve brisa). Pulei dentro do elevador e agonizei até que chegasse novamente ao terceiro piso. Desci o intricado circuito de escadas rolantes e fiz o caminho de volta até a entrada. Agradeci quando cruzei a porta e o sol finalmente invadiu as minhas retinas e a fumaça dos carros o meu pulmão. Então tossi como se não houvesse amanhã.
  Naquele momento, no entanto, quando parecia que meus pulmões já se encontravam na boca, algo chamou a minha atenção e me fez esquecer da tosse. Vislumbrei um prédio abandonado em frente à porta do Shopping Niterói!
  Poeticamente, comecei a admirar o prédio como se fosse uma obra de arte. Teorizei e especulei enquanto meus olhos seguiam o edifício até o topo. Pensei em quantos viciados, moradores de rua e animais urbanos deveriam morar naquele prédio. Fiquei impressionado no simbolismo do edifício, plantado no centro da cidade de Niterói, em frente a um dos estabelecimentos comerciais mais icônicos da baia da Guanabara. Mas nada disso me preparou para o veria a seguir.
  Quando meus olhos finalmente alcançaram o topo do edifício abandonado, alguma coisa chamou a minha atenção um pouco à direita, no prédio vizinho. Foi então que eu avistei uma das cenas mais psicodélicas da minha vida. Ali, no centro de Niterói, perto do natal, em frente ao Niterói Shopping, no alto de um prédio, no topo de uma antena, havia um urubu. Um urubu! Fiquei ali. Parado. Admirado. Totalmente consumido pela simbologia do momento.
  Impressionante, mas no terraço enegrecido de um prédio qualquer havia um urubu. Tranquilo e em paz, com as asas recolhidas, olhando de um lado para o outro. Lá do alto, admirando a todos nós e talvez pensando lá com os seus botões, “é parceiro, não tá fácil pra ninguém!”