Não sou artista, mas facilmente me
deixo impressionar pelo poder de uma imagem.
Há alguns meses estava no centro
de Niterói visitando um amigo dentista que ofereceu um check-up gratuito na
dentição. O que aconteceu naquele dia me marcou de tal forma, que, até hoje,
quando fecho os olhos, filosofo.
O consultório do amigo ficava no
famoso Niterói Shopping. Lá pela metade de uma manhã de dezembro, saí da casa
dos meus sogros em um calor escaldante de 44 graus e andei até o ponto de
ônibus em Santa Rosa. Peguei o 45 em direção ao centro. Ao escalar o ônibus, a
primeira sensação foi a de choque térmico. Passei do calor miserável da rua
para o frio europeu do ônibus e peguei um resfriado. Já com o nariz escorrendo,
encontrei um lugar no coletivo. Sentei e comecei a minha jornada pelo transito
da cidade. Como sempre, trouxe um livro comigo, mas naquele dia ao invés de
ler, preferi admirar o cenário urbano. Não deu muito certo, em poucos segundos abri
o livro e comecei a leitura.
Cerca de vinte minutos depois,
com a garganta já inflamada, avistei o Niterói Shopping pela janela. Não sei
porque, mas sempre que vejo aquela aberração arquitetônica me lembro de um
sorvete com gosto de Pinho Sol que meu pai comprou quando eu era criança, lá na
cidade de Itú. Talvez seja porque o Shopping pareça com o sorvete. Se um dia
voltar a Itú, vou checar. Se bem que isso foi lá na década de 1980 e duvido que
ainda vendam o tal sorvete.
O ônibus parou no ponto da
famosa Amaral Peixoto. Desci do veículo com a sensação de estar entrando em um
forno. Depois de quase ser atropelado pelos pacientes motoristas brasileiros,
consegui chegar a entrada do Shopping. Entrei no prédio e, depois de passar por
uma sequência de lojas de roupa plus-size e equipamentos hospitalares, cheguei
à escada rolante. Levei um tempo para me encontrar, pois parece que, por mais
simples que aquele Shopping seja, os arquitetos cismaram que deviam complicar as
coisas e valorizar o seu infeliz trabalho. Quando finalmente cheguei ao
terceiro piso, alcancei os elevadores e fiquei com muito medo, pois o lugar
parecia um bunker de concreto de algum filme sobre a segunda guerra.
O elevador subiu, subiu,
subiu... e parou. Ao sair do elevador, estava em um corredor tipo Resident
Evil, com uma luz com mal contato piscando lá no fundo. Andei pelo que parecia
um abrigo nuclear abandonado e cheguei ao consultório indicado. Toquei a campainha,
esperei e nada. Depois de alguns minutos, decidi que meu amigo não estava lá e
resolvi correr de volta para o elevador. Enquanto caminhava, suava de gotejar
(neste momento, tenho certeza que ouvi a voz do Sauron seguida de uma leve
brisa). Pulei dentro do elevador e agonizei até que chegasse novamente ao
terceiro piso. Desci o intricado circuito de escadas rolantes e fiz o caminho
de volta até a entrada. Agradeci quando cruzei a porta e o sol finalmente
invadiu as minhas retinas e a fumaça dos carros o meu pulmão. Então tossi
como se não houvesse amanhã.
Naquele momento, no entanto, quando parecia que meus pulmões já se
encontravam na boca, algo chamou a minha atenção e me fez esquecer da tosse. Vislumbrei
um prédio abandonado em frente à porta do Shopping Niterói!
Poeticamente, comecei a admirar o prédio como se fosse uma obra de arte.
Teorizei e especulei enquanto meus olhos seguiam o edifício até o topo. Pensei
em quantos viciados, moradores de rua e animais urbanos deveriam morar naquele
prédio. Fiquei impressionado no simbolismo do edifício, plantado no centro da
cidade de Niterói, em frente a um dos estabelecimentos comerciais mais icônicos
da baia da Guanabara. Mas nada disso me preparou para o veria a seguir.
Quando meus olhos finalmente alcançaram o topo do edifício abandonado,
alguma coisa chamou a minha atenção um pouco à direita, no prédio vizinho. Foi
então que eu avistei uma das cenas mais psicodélicas da minha vida. Ali, no centro
de Niterói, perto do natal, em frente ao Niterói Shopping, no alto de um
prédio, no topo de uma antena, havia um urubu. Um urubu! Fiquei ali. Parado. Admirado.
Totalmente consumido pela simbologia do momento.
Impressionante, mas no terraço enegrecido de um prédio qualquer havia um
urubu. Tranquilo e em paz, com as asas recolhidas, olhando de um lado para o
outro. Lá do alto, admirando a todos nós e talvez pensando lá com os seus
botões, “é parceiro, não tá fácil pra ninguém!”